Dom Pedro II sabia o que era mobilidade
Antonio Pastori (*)
Dia 23/06 foi comemorado o sesquicentenário de inauguração da primeira estrada carroçável do Brasil, a União & Indústria, uma obra sem precedentes que permitiu que a viagem entre Petrópolis e Juiz de Fora demorasse somente 12 (doze) horas. Antes, essa odisséia consumia uma semana, no mínimo, em estradas não pavimentadas, uma tortura para os viajantes que percorriam o Caminho Novo da Regular Estrada Real, a Calçada do Proença, e outras trilhas antigas. Não seria exagero dizer que naquele tempo levava-se dois dias inteiros para ir do Rio a Juiz de Fora, coisa hoje se faz em menos de três horas pela BR-040 em dias normais, é claro, apesar desses dias normais estarem ficando cada vez mais raros...
A redução do tempo de percurso começou bem antes, mais precisamente em 1854, com a inauguração da Estrada de Ferro de Petrópolis da Imperial Cia. de Navegação a Vapor, do Barão de Mauá, tornando-se a primeira ferrovia do Brasil. O genial Mauá soube se valer da combinação do vapor com as mobilidades existentes adicionando o trem ao sistema permitindo, com isso, que a perna Rio-Petrópolis da viagem até Juiz de Fora consumisse apenas três horas e meia, ao invés de um dia inteiro. Esse trem consistia de uma locomotiva a vapor - a Baroneza - que tracionava até três carros de passageiros (120 pessoas) a velocidade assombrosa de 36 km/h.
A viagem Rio-Petrópolis começava com a travessia da Baia de Guanabara por barco a vapor (do Barão); mais trinta minutos de trem do porto de Guia de Pacobaiba (Magé) para chegar até a Raiz da Serra da Estrela, e mais umas duas horas de subida pela belíssima Serra da Estrela. Contudo, ainda levariam 29 anos para que a subida fosse reduzida em somente 30 minutos com a inauguração da primeira linha de trem a cremalheira do Brasil, em 1883, ligando a Raiz ao Alto da Serra de Petrópolis, num trecho de 6,1 quilômetros. A Grão-Pará era o prolongamento natural - filha legitima - da E. F Mauá que, infelizmente, foi desativada em 1964.
Resumindo, no final do século XIX, a viagem Rio-Petrópolis já podia ser feita seguramente em duas horas: uma hora de barco e mais uma de trem. Então, caso fosse necessário, era bastante factível fazer o percurso Rio-Juiz de Fora em um dia, apesar de ser muito cansativo. Em nenhum outro local do Brasil era possível percorrer-se mais de 200 km em um dia, graças a U&I, o trem e a Barca a vapor.
Contudo, hoje, apesar de tombada pelo IPHAM, a E. F. Mauá (como é amplamente conhecida) encontra-se totalmente abandonada e longe, muito longe de receber igual (e justíssima) homenagem como a que está recebendo a União & Indústria. Esperamos um dia mudar essa história, com a reativação da Grã-Pará que devido à visão míope dos condutores da Nação à época, sobreviveu somente 81 anos, ao passo que a U&I, apesar de mal cuidada, ainda presta bons serviços, e assim o fará por muitos e muitos anos.
Isso tudo são provas insofismáveis da visão que o nosso Imperador Pedro II tinha em relação aos transportes, qualidade esta que hoje se encontra relegada a segundo plano, ao menos na visão da maioria dos administradores públicos que se mostram incapazes de solucionar os velhos e conhecidos problemas de mobilidade, que se agravam a cada dia fazendo com que uma simples viagem Rio-Petrópolis consuma o mesmo tempo de viagem de 150 anos atrás, apesar de toda tecnologia embarcada nos automóveis de hoje (ABS, GPS, computador de bordo, etc.) viajamos no trecho Rio-Petrópolis numa velocidade média bastante inferior a da locomotiva Baroneza; ou seja, menos de 30 km/k. Oremos, pois.
Antonio Pastori: contato com o autor acdpastori@gmail.com
Matéria da Tribuna de PEtrópolis de 22/06/2011
Nesta quinta-feira (23), a Prefeitura de Petrópolis e a Comissão Organizadora realizarão a solenidade de abertura oficial das comemorações dos 150 anos da Estrada União e Indústria – primeira estrada pavimentada do Brasil –, às 10h, na Avenida Barão do Rio Branco, altura do nº 234. Para a solenidade foram convidados os prefeitos de Areal, Três Rios, Comendador Levy Gasparian, Matias Barbosa, Simão Pereira e Juiz de Fora, municípios por onde passa a estrada. A homenagem está inserida na programação da Bauernfest – festa do colono alemão –, que este ano ocorre de 22 de junho a 03 de julho.
Na ocasião, será lançada uma revista especial sobre os 150 anos da estrada, uma realização da Fundação de Cultura e Turismo de Petrópolis, com a colaboração de diversos historiadores. As comemorações terão continuidade no Palácio de Cristal onde serão homenageados aqueles que contribuíram para a construção da estrada, com a abertura oficial da Exposição Itinerante Engenharia da Estrada União e Indústria, do Museu Dinâmico de Ciência e Tecnologia, e apresentação do Coral Canarinhos de Petrópolis.
Também participarão do evento representantes das seguintes instituições: Museu Imperial; Fundação Museu Mariano Procópio; Universidade Federal de Juiz de Fora; Instituto Histórico de Petrópolis; Instituto Histórico e Geográfico de Juiz de Fora; Associação Cultural e Recreativa Brasil-Alemanha; Associção Histórica de Matias Barbosa; e Concer.
União e Indústria
A Estrada União e Indústria foi inaugurada em 23 de junho de 1861 pelo imperador d. Pedro II. A obra para construção da estrada teve ampla repercussão no Brasil devido à sua engenhosidade, com a técnica pioneira de pavimentação com macadame (material semelhante ao asfalto). Idealizada por Mariano Procópio Ferreira Lage, contou com a mão-de-obra de centenas de colonos alemães e facilitou, na época, o escoamento da produção cafeeira. Hoje, a estrada é considerada de grande importância para o desenvolvimento econômico e sócio-cultural da região, consolidando a integração entre os sete municípios envolvidos.
Fonte: Ascom PMP
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