TRILHOS
DORMENTES
- Gustavo Alvim
Da
janela do meu apartamento, eu vejo um trecho de uma linha férrea
hoje abandonada. Vejo dormentes e trilhos! Ou seriam "trilhos
dormentes"?
Vejo também o telhado da antiga estação,
fim de linha, onde já não há mais trens.
Até quatro ou cinco anos atrás, teimosamente, algumas
composições de carga, em horários incertos,
ainda transportavam açúcar e aço. Quando
isso acontecia, ao ouvir o apito da locomotiva, eu não
resistia: corria para ver o trem do alto da minha janela. Minha
esposa quase sempre repetia: "Você parece uma criança!"
Mesmo não sendo mais criança, eu voltava, sim, ao
passado, à minha infância, no oeste do estado de
São Paulo, a Vera Cruz, pequenina cidade onde nasci, fundada
aí pela década de 20, exatamente em função
do avanço da ferrovia, que ia demarcando com piquetes as
áreas para o estabelecimento de futuras localidades. Lembrança
de um tempo bom e saudoso.
A casa, onde morei na primeira infância, ficava próxima
da ferrovia e bem perto da estação. Também
dessa casa eu via e ouvia o trem. A plataforma da pequena estação
era o ponto de encontro de muitos, que para ali acorriam, nos
finais de tarde, começo de noite, para receber ou embarcar
pessoas, ou simplesmente buscar os jornais. Ali chegavam mercadorias.
Igualmente, dali a gente passava telegramas e remetia encomendas.
O trem era o único transporte viável para viagens
de longa distância; para viagens em férias ou visitas
aos avós maternos.