TRILHOS DORMENTES
- Gustavo Alvim
Da janela do meu apartamento, eu vejo um trecho de uma linha férrea hoje abandonada. Vejo dormentes e trilhos! Ou seriam "trilhos dormentes"?
Vejo também o telhado da antiga estação, fim de linha, onde já não há mais trens.
Até quatro ou cinco anos atrás, teimosamente, algumas composições de carga, em horários incertos, ainda transportavam açúcar e aço. Quando isso acontecia, ao ouvir o apito da locomotiva, eu não resistia: corria para ver o trem do alto da minha janela. Minha esposa quase sempre repetia: "Você parece uma criança!" Mesmo não sendo mais criança, eu voltava, sim, ao passado, à minha infância, no oeste do estado de São Paulo, a Vera Cruz, pequenina cidade onde nasci, fundada aí pela década de 20, exatamente em função do avanço da ferrovia, que ia demarcando com piquetes as áreas para o estabelecimento de futuras localidades. Lembrança de um tempo bom e saudoso.
A casa, onde morei na primeira infância, ficava próxima da ferrovia e bem perto da estação. Também dessa casa eu via e ouvia o trem. A plataforma da pequena estação era o ponto de encontro de muitos, que para ali acorriam, nos finais de tarde, começo de noite, para receber ou embarcar pessoas, ou simplesmente buscar os jornais. Ali chegavam mercadorias. Igualmente, dali a gente passava telegramas e remetia encomendas.
O trem era o único transporte viável para viagens de longa distância; para viagens em férias ou visitas aos avós maternos.
Nas aulas do Grupo Escolar, tínhamos de estudar todas as estradas de ferro existentes no Estado de São Paulo: a Santos-Jundiaí (antiga SPR), a Sorocabana, a Mogiana, a Paulista, a Noroeste, a Central do Brasil, a Brasil - Bolívia, a Araraquarense. E mais, tínhamos de saber desenhá-las no mapa e repetir, pela ordem, o nome das cidades.. E havia uma curiosidade que despertava a atenção de todos. A Paulista, a partir de Bauru, em direção ao Mato Grosso, tinha, depois de Piratininga, as cidades denominadas em ordem alfabética: Alba, Brasília, Cabrália, Duartina, Esmeralda, Fernão Dias, Gália, Garça (duas cidades com G, faltou uma iniciada com o H), Jafa, Vera Cruz (minha cidade natal, outra exceção, que, um dia, soube deveria chamar-se Kentucky), Lácio, Marília, Nóbrega, Oriente, Pompéia, Quintana e assim por diante.
Foi pela Cia. Paulista de Estradas de Ferro que deixei Vera Cruz, aos onze anos de idade, para viver em Piracicaba. Mais tarde, igualmente por ela, já na Faculdade, viajava semanalmente para São Paulo, onde estudava. Sentia-me importante ao usar a caderneta quilométrica, vestido com um guarda-pó para proteger-me das fagulhas da voluntariosa Maria Fumaça, que trabalhou no ramal Piracicaba - Nova Odessa, até ceder lugar às máquinas a óleo.
Quantas viagens! No Estado e fora do Estado. Viajei pela Viação Férrea Paraná-Santa Catarina e pela Leopoldina. Bitola estreita. Leitos sem lastro de pedra, um pó incrível! Várias vezes na segunda classe, por falta de "grana". Histórias e mais histórias poderiam ser lembradas. Contudo, não é o caso nem a melhor oportunidade.
Hoje, do alto da minha janela, vejo "trilhos dormentes" e o telhado da antiga estação ao longe, agora sendo usada para outros fins. Para chegar à Universidade, onde trabalho, cruzo essa mesma linha férrea abandonada. Piracicaba não tem mais trem. Teve a Ituana, que chegou em 1887, mais tarde denominada Sorocabana. Desativada por volta da década de 60, deixou poucos vestígios, como, por exemplo, o prédio da estação, no centro da cidade, que foi recuperado, para sediar uma repartição pública municipal. Teve também a Cia. Paulista, pontualíssima. Pela chegada do trem das quinze e trinta, todas as segundas-feiras, o zelador da Igreja Metodista acertava o antigo relógio da torre. Da Paulista desativada, ainda há trilhos esquecidos e a estação para ser restaurada.
Até hoje Piracicaba sonha com o retorno da ferrovia. Sonha em vir a ser o marco zero da hidrovia Piracicaba-Tietê, entrada do Mercosul. Luta para ser um entroncamento hidro-ferro-rodoviário, com o restabelecimento do transporte sobre trilhos. Mas não é só. Quer mais. Quer que esse Seminário seja um grito a ecoar forte, contra o abandono da estrada de ferro e seu valioso patrimônio cultural. Esta é uma das fortes razões para a Unimep - Universidade Metodista de Piracicaba estar apoiando a realização deste evento, como parceira nesta importante empreitada.
Desejamos o sucesso que essa causa tão nobre merece.
Gustavo Jacques Dias Alvim é Reitor da Unimep - Universidade Metodista de Piracicaba e participante do MPF - Movimento de Preservação Ferroviária, desde o início de suas atividades.
Este texto foi escrito e lido pelo Prof. Gustavo, em 28 de outubro de 2004, por ocasião da cerimônia de abertura do Seminário comemorativo do Sesquicentenário da Ferrovia no Brasil, realizado no Centro Cultural Martha Watts, do IEP - Inst. Educacional Piracicabano, em Piracicaba - SP.
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