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Dodeskaden
Para mim, tudo começou em Passa Quatro, há dez anos. O projeto do trem maria fumaça passaquatrense precisava de uma avaliação de viabilidade técnica. O prof. Victor ousou pedir ajuda à CBTU, que na época, assim como agora, tem muito pouco a ver com trens maria fumaça ou com turismo.
Um diretor de então, recebeu o pedido meio na saia justa. Não podia comprometer-se com nada, mas não queria dizer não, principalmente porque tinha interesses políticos na região. Despachou o assunto para um departamento que se chamava de planejamento de transportes, mas de fato era um núcleo dos técnicos “pau para toda a obra”, que cuidavam de todos os assuntos fora das especialidades ferroviárias tradicionais.
Sempre gostei de trabalhar nesse setor. Cada dia era diferente do outro, não havia receita para nada, os desafios eram sempre muito diversificados, o conhecimento dos assuntos tinha que ser construído ad hoc. Lá fui eu, então para Passa Quatro analisar a viabilidade técnica de uma coisa que eu só conhecia como turista.
Um sonho de um trem maria fumaça, uma estrada de ferro desativada, um prefeito com tempo para longas conversas mineiras, sem pressa; conversas com donos de pousada ao lado de um prato de torresmo e uma cachacinha de alambique, uma longa caminhada pelos dormentes da ferrovia no meio de chácaras e quintais, tudo muito diferente dos projetos que eu conhecia. Quantos milhões de pessoas este trem transportará ? Qual será o intervalo entre trens ? Que tamanho terão que ter suas estações ? Como o trem se integrará com os ônibus ? As perguntas, que eu aprendera a fazer a vida toda, não tinham mais nenhum sentido nesta nova realidade.
Havia que começar pelo começo. Antes de dar respostas, eu teria que buscar primeiro as perguntas certas. Mas, como dizia o poeta Ferreira Gullar, “metade de mim pensa e pondera, a outra metade delira”. Enquanto minha cabeça andava disciplinadamente atrás dos números, das planilhas, dos custos e dos benefícios, meu coração lentamente era tomado por uma emoção diferente. Velhos caminhos de Minas, velhos ferroviários e suas lembranças, antigos valores atropelados por um urbanismo exacerbado, por um modelo de desenvolvimento irracional e predador... A possibilidade de empenhar recursos públicos em sonhos utópicos me parecia fascinante.
Quando dei por mim, estava sentado na foto dos fundadores do MPF. Tinha ido representando a CBTU, mas, hoje percebo com clareza, a CBTU apenas bancou a minha viagem. Aliás, bancou daquele jeito típico da nossas empresas públicas, reembolsou-me as passagens de ônibus alguns meses e muitos formulários preenchidos depois.
A causa da preservação ferroviária me encantou desde esse começo. Parte pelo encanto próprio do jeito com que o Victor trata todas as pessoas. Todos que com ele trabalham sentem-se prestigiados e recompensados. A seu lado, qualquer bandeira serve.
A outra parte do encanto vem de um mistério. A saga da ferrovia é semelhante a história de outras tecnologias de transporte, que surgiram em uma certa época, aperfeiçoaram-se ao longo do tempo, esgotaram os seus limites e foram substituídas por outras tecnologias possíveis e necessárias para os novos desafios.
O tronco na água foi substituído pela piroga, que deu origem ao barco a remo, que foi superado pelo barco a vela, que perdeu para o navio a vapor, que cedeu lugar ao navio a oleo diesel e ao submarino com combustível nuclear. A tropa de burro foi superada pela estrada de ferro a vapor, que perdeu para a locomotiva diesel, que cedeu espaço para a diesel-eletrica. Na cidade, o transporte de carroça e carruagem perdeu para o bonde a burro e depois para o bonde elétrico que foi desbancado pelo ônibus e pelo automóvel, que agora precisam ceder espaço para os trens metropolitanos e pelos metrôs.
Toda a mudança produz os seus nostálgicos. Como tem gente que adora vinil, tem também os que se apegam ao cinema película resistindo ao cinema digital. Mas nada é semelhante à nostalgia ferroviária. A nostalgia ferroviária é uma árvore frondosa, um monumento, um edifício. Ela impregna corações e mentes com uma força insuspeita. Numa época de preocupante desmobilização política em todos os níveis e em todas as instâncias, os movimentos de ferroviários conseguem juntar gente e dinheiro em quantidade suficiente para recuperarem linhas, vagões e locomotivas e fazê-los de novo funcionar. Ferroviaristas são muitos os que nunca foram ferroviários, nem filhos ou netos de ferroviários. Amantes da ferrovia podem ser encontrados tambem entre os jovens e entre as crianças, que parecem assim gostar de um passado que não é delas.
As caravelas tiveram um papel fundamental na formação do Brasil Colonial. São também uma criação tecnológica fantástica, um artefato que mudou cabeças e abriu uma nova visão de mundo. Mas não existem os seus amantes, não se preservam seus vestígios, ninguém suspira por elas.
A nostalgia do trem alucina. Certa vez estávamos em um seminário de preservação ferroviária fazendo uma visita a uma rotunda, quando apareceu um companheiro, feliz, mostrando o brinquedo: sabem o que eu tenho aqui ? o apito da Baronesa ! E mostrava um gravador. O pessoal se aproximou curioso, ele acionou o gravador e ouviu-se o apito da Baronesa, uma locomotiva mais do que conhecida no meio: uuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuu....A turma delirou ! Toca de novo, toca de novo ! Cada retardatário que chegava tinha direito a mais uma exibição do apito da Baronesa que deixava a todos em êxtase profundo. Fiquei impressionado.
Eu achava que entendia de trens, havia trabalhado a vida inteira com trens. Mas vi que o pouco que eu entendia era sobre o trem enquanto máquina. Nada sabia sobre o trem enquanto símbolo, o trem enquanto fábula. Será que o que encanta é o fato de ser um sinal da história, uma marca de um passado ? Pode ser, mas porque outros sinais da história não despertam tais emoções ?
Interessei-me, como engenheiro, por dissecar essa maquina para ver em que peça, em que engrenagem, em que dispositivo reside o encanto. Será que o encanto acontece com qualquer tipo de trem ? A resposta parece ser não. O Metrô também é um trem, mas andar nele não tem nada a ver com isto que chamamos de nostalgia do trem. Um trem de carga, carregado com dezenas de vagões - tanque de gasolina atravessando e paralisando uma pacata cidade também não é o trem que encanta.
Cheguei a pensar que o que torna o trem da nostalgia tão particular em relação aos outros vestígios da história é sua característica estética e sonora. Muitas máquinas apitam, não só as locomotivas. Porque o só apito delas alucina ? Fábricas também apitam, mas só Noel Rosa lembrou de um apito que o fazia sonhar. Tem gente que acha que o som da roda no trilho do trem é sua própria identidade. Roda de aço em cima de trilho de aço, isso é que é trem.
Lembrei-me de uma discussão antiga. Mesmo assumindo que o metrô não é o trem da nostalgia, todos concordamos que metrô é trem. Mas o metrô do México por exemplo, é em tudo igual aos demais metrôs, menos nas rodas, que são com pneus que rodam sobre pistas de aço. Já perguntei uma vez a um amigo metroviário, em visita ao metrô do méxico: e aí fulano, isto aqui é metrô ou não ? Ele ficou na dúvida, hesitou, acabou dizendo que não, que aquilo era um sistema rodoviário. Para ele tambem, o som da roda de aço sobre o trilho de aço era fundamental para chamar-se alguma coisa de trem.
Mas mesmo o som roda-trilho de aço, que seria um dos componentes do trem da nostalgia, também mudou ao longo das dácadas. O trem da nostalgia tinha trilhos interrompidos por juntas de dilatação, quando o trem ali passava, fazia “cadam”. Novas tecnologias criaram o trilho longo soldado que não tem juntas e não faz cadam, cadam, cadam ... Para ser trem que emociona, tem que ter cadam ?
Um dos mais belos filmes de Akira Kurosawa é Dodeskaden. Um rapaz da favela, depois de tentar várias vezes entrar para o quadro da ferrovia, enlouquece e se vê condutor de trem. Dentro do espaço sujo e pobre da favela ela cria um trem no vácuo e, por gestos, sons e palavras, todos os dias assume o comando do trem, apita e sai fazendo o barulho do des ka den, do des ka den, do des ka den. O som da roda de aço no trilho de aço com junta de dilatação, esse é o som que alucina e seduz ?
Dez anos depois pouco avancei na resposta. É verdade que agora a resposta já não me importa tanto. O que importa é que o trem, aquele trem da nostalgia, com sua mística e sua técnica, com seu som dodeskaden, com seus personagens e seus rituais, com suas as historias e suas lendas é ainda capaz de emocionar pessoas e alimentar utopias.
Não se constrói uma utopia sem memória. Mas a memória do trem da nostalgia está ameaçada de residir apenas no coração de seus amantes, se os documentos que a registram forem abandonados. Algum dia talvez entenderemos melhor estes mistérios. Por hoje, não há tempo, a tarefa urgente é salvar o que resta da lembrança desse trem de ferro, dessa imagem cultural e afetiva. Dodeskaden !
José Cássio Ignarra, Engenheiro e Mestre em Administração Pública, é Diretor Técnico do MPF - Movimento de Preservação Ferroviária. |
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