| |
 |
Um Trem Muito Sério
- Plínio Fajardo Alvim
Em Minas, o trem não é meramente um meio de transporte. Para nós, mineiros, qualquer coisa é um trem. Ou melhor, usando nosso próprio dialeto: qualquer trem é um trem.
Quando temos fome, comemos um trem. Se temos sede, bebemos um trem. Às vezes, um trem pode nos espetar o dedo. Outras, um trem pode cair em nossos olhos. A todo momento esbarramos em algum trem. Há sempre um trem em nosso caminho, ajudando ou atrapalhando.
Se algo nos assusta ou surpreende, é um trem-de-doido. Se a coisa é boa, é um trem bom demais. Enquanto padecemos de algum mal que não sabemos definir, seja ele físico ou emocional, o que sentimos é um trem esquisito.
O trem para nós assume conceitos, dimensões e nuances inimagináveis em outras terras.
Nossos trens podem ter formas, cores, sabores, sons, odores, qualidades, defeitos e quaisquer outras características que quisermos, concretas ou abstratas. Assim, incontáveis trens circulam ou estacionam no cotidiano e no inconsciente coletivo do povo mineiro. Aqui, em Minas, tudo é trem.
O trem tanto pode incomodar como embalar nosso sono. Mas, sobretudo, o trem nos faz sonhar; ... e quase sempre acordados. Para nós, quando irados, até gente e bicho podem ser trens. Afinal, nossos trens são também seres que têm vida e que são a nossa vida.
O trem está para o mineiro assim como o sincretismo religioso está para o baiano, como a praia para o carioca e como a aridez para o nordestino. Nossos trens são valores e sentimentos manobrando na estação do nosso coração.
Trem é Minas e Minas é trem. O trem é a alma de Minas. Trem em Minas é como "uai", não tem tradução. Só nós sabemos o que significa.
Uai é uai e trem é trem, sô!...
|
|