Um
Trem Muito Sério
-
Plínio Fajardo Alvim
Em Minas, o trem não é meramente um meio de transporte.
Para nós, mineiros, qualquer coisa é um trem. Ou
melhor, usando nosso próprio dialeto: qualquer trem é
um trem.
Quando temos fome, comemos um trem. Se temos sede, bebemos um
trem. Às vezes, um trem pode nos espetar o dedo. Outras,
um trem pode cair em nossos olhos. A todo momento esbarramos em
algum trem. Há sempre um trem em nosso caminho, ajudando
ou atrapalhando.
Se algo nos assusta ou surpreende, é um trem-de-doido.
Se a coisa é boa, é um trem bom demais. Enquanto
padecemos de algum mal que não sabemos definir, seja ele
físico ou emocional, o que sentimos é um trem esquisito.
O trem para nós assume conceitos, dimensões e nuances
inimagináveis em outras terras.
Nossos trens podem ter formas, cores, sabores, sons, odores, qualidades,
defeitos e quaisquer outras características que quisermos,
concretas ou abstratas. Assim, incontáveis trens circulam
ou estacionam no cotidiano e no inconsciente coletivo do povo
mineiro. Aqui, em Minas, tudo é trem.