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Prosas&Versos / Textos&Trilhos

CANÇÃO PARA O TREM QUE NÃO VOLTARÁ
- Victor José Ferreira

 

Suarenta e arfante, a velha locomotiva caminhava mais um pedaço. E alguns trilhos, já gastos, presos à máquina por cabos de aço, soltaram-se da terra, em meio à multidão de pó e ruído.

Era o fim. Morria a pouco e pouco aquela linha férrea que o frio julgamento do progresso condenara.

A velha máquina, gigante dócil, obedecia sem discussões quantas ordens lhe dava o comando destruidor. Arquejava, oscilava, novos trilhos soltavam-se, relutantes, do chão que até ali abraçavam.

Só marcas ficaram. Rastros de aço em terra ferida, marcas de separação.
À margem, bem junto, o velho pouco se mexia. Sentado na pequena elevação, cotovelos nos joelhos, rosto entre as mãos, os olhos - cansados faróis - registravam tudo, mudas testemunhas da agonia final.

Mais uma vez a terra era violentada, outro trilho saltava, entre gemidos de dormentes podres. E o velho caminhava mais para dentro de si, sua alma violentada com o apocalipse visual.

CANÇÃO PARA O TREM QUE NÃO VOLTARÁ 1 / 2 / 3 - Volta
© Movimento de Preservação Ferroviária