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CANÇÃO PARA O TREM QUE NÃO VOLTARÁ
- Victor José Ferreira

 

Suarenta e arfante, a velha locomotiva caminhava mais um pedaço. E alguns trilhos, já gastos, presos à máquina por cabos de aço, soltaram-se da terra, em meio à multidão de pó e ruído.

Era o fim. Morria a pouco e pouco aquela linha férrea que o frio julgamento do progresso condenara.

A velha máquina, gigante dócil, obedecia sem discussões quantas ordens lhe dava o comando destruidor. Arquejava, oscilava, novos trilhos soltavam-se, relutantes, do chão que até ali abraçavam.

Só marcas ficaram. Rastros de aço em terra ferida, marcas de separação.
À margem, bem junto, o velho pouco se mexia. Sentado na pequena elevação, cotovelos nos joelhos, rosto entre as mãos, os olhos - cansados faróis - registravam tudo, mudas testemunhas da agonia final.

Mais uma vez a terra era violentada, outro trilho saltava, entre gemidos de dormentes podres. E o velho caminhava mais para dentro de si, sua alma violentada com o apocalipse visual.

Por que faziam isso? Seu coração não entendia. O trem sempre caminhara por ali, por que não o queriam mais? Máquina, trilhos, dormentes, tudo sempre existira, tudo lhe parecia tão eterno, por que não o acreditavam?

Ele nascera ali mesmo, vira o trem chegar, a esperança que aportava, trazendo o amanhã do progresso. Acompanhara o enxerto de madeira e aço naquela terra rebelde, virgem que se deflorava para a estranha concepção.

Em breve chegava o trem. Um ser diferente, estranhamente místico, que passou a povoar dia e noite com sua presença pesada e imponente. Quanta coisa chegou com ele! Tantas coisas levou e trouxe, mensageiro de distantes recados, testemunha fiel de gentes e fatos, de vida e morte, de chegada e despedida... Muita gente ele vira nascer, condutor de assustadas criaturas que carregavam no ventre uma vida nova, mundos de esperança, universos nascidos do amor.

Muita gente o trem ajudar partir, "carros de defuntos" ele transportara, viagem última de quem deixava de ser.

Quantos ais de amor ouvira ele, indiscreto invasor das noites e das sinuosas curvas, onde corpos se misturavam com suor e orvalho! Quantos queixumes, quanto suave cantar, quantos segredos, quantas aflições, quanta vida se escoara à sua passagem, cobra de aço, a musicalidade de suas rodas possuindo os trilhos, a fumaça inundando tudo.