E S T A Ç Õ E S
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Carmen Cardin
Era setembro. Eu me lembro, perfeitamente!
As maritacas cantavam a manhã, alegremente,
despertavam toda a humanidade, indiferente,
ao deslumbrante colorido, alarido do seu canto.
Do coador de pano, nascia o café. Broa de milho
assando no fogão à lenha. Lá longe o estribilho
da Maria Fumaça estrelando seu balé no trilho
a ressuscitar meus avós perdidos. Chorava tanto!
Era setembro. De manhã, caminhava no quintal.
Imaginava fundir-me com a beleza do sobrenatural
de uma exuberância sagrada, jamais vista igual:
os ipês haviam esculpido um arco-iris no vergel.
Eu saboreava as sinfonias, eu degustava romances
- nunca consegui compreender, do Destino, os lances! -
Estendia roupa no varal. Deus Sol pincelava nuances
na clarabóia dos sonhos, que me descortinava o Céu!
Colhi tantas escarolas na horta, semeei o jardim.
Sentia o suor a escorrer na face, adubando, assim,
saudade de um amor que o inverno levou de mim,
paixão relampejante e fugaz: tempestade de verão!
A lareira a crepitar, sustentando a lembrança acesa
do que fomos um para o outro. O caldo verde à mesa,
sua cadeira vazia. Pudim de leite, ingrata sobremesa
(prometi não fazer, não ouvir mais Gipsy Kings, jamais!).
Assim, como se vê, do veneno do abandono ninguém morre.
É como se extrair látex da seringueira. Seco, o outono
escorre.
Plantei um “comigo-ninguem-pode” na soleira.
“I am sorry”
porque te esqueci. Nada me falta. É primavera, uma vez mais.
Carmen Cardin, poeta do Rio de Janeiro, escreveu já mais de 400 poemas e publicou o livro “Atalho para o Banquete” - Oficina Editores, Rio, 2011. |