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TREM DE GADO

- Cora Coralina

 

E as boiadas vêm descendo do sertão!
Safra, entressafra...
Mato Grosso, Minas, Goiás.
Caminhos recruzados. Pousos espalhados.
Estradas boiadeiras. Aguada...
Pastos e gerais.
Cerrados. Cerradões...
Compáscuos...
Cercados. Aramados.
Corredores.
Nhecolândia. Pantanal.
Cochim.
Campos de Vacaria. Dourados. Maracaju.
Rio Verde.
Santana do Parnaíba. Serras do Amambaí.
Criatório...
Boiadeiros. Fazendeiros.
Comissários. Criadores.
Invernistas. Recria.
Trem de gado ronceiro...
jogando, gingando
nos cilindros, nos pistões, nas bielas e nos truques.
Rangendo, chocalhando,
estrondando nas ferragens.

Resfôlego de vapor.
Locomotiva crepitando, fagulhando,
Apitando, sinalando, esguichando, refervendo.

Chiados, rangidos, golfadas, atritos, apitos.
Bandeira vermelha que se agita.
Bandeira verde da partida.
E o resfolegar do trem que vem, do trem que vai...

Trem de gado engaiolado, parado
na plataforma, na esplanada.
Gente que passa
- pára.

Corre os olhos. Conta as gaiolas. Avalia. Sopesa.
Soma. Dá o cômputo.
Espia. Mexe. Recua.
Procura agitar os bois famintos, sedentos.
Cansados, enfarados, pressionados.

Trem de gado...

(Poemas dos Becos de Goiás e Estórias Mais – Global Editora, São Paulo, 22ª. Edição, 2006)