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Maria Fumaça

 

Rubem Alves - "Cenas da Vida"

Pensei nessas coisas andando numa Maria Fumaça - nome lindo. Primeiro por ser Maria. Certamente quem a batizou deveria ser casado com uma mulher que tinha fogo nas entranhas. Segundo, por ser fumaça... Maria Fumaça é uma Mulher Poeta.

Maria Fumaça é uma máquina que serve para não funcionar. Não pode competir com carro. "Maria Fumaça já não canta mais para moças, flores, casas e quintais".

Já não canta mais: olhando a Maria Fumaça abandonada nalgum galpão, à espera do desmonte e do ferro-velho, ele se lembrava de quando ela cantava e todo mundo - como n'A Banda - aparecia prá ver ela passar. E quando ela passava era tudo alegria. O Milton poetou olhando para o espaço vazio, onde a Maria Fumaça erá só o buraco da ausência chamado saudade.

Mas a minha Maria Fumaça era presença.

Foi numa viagem de Tiradentes para São João Del Rei. Cantava. Ai, que coisa mais triste! Nada mais pungente. É um lamento rouco que começa grave e vez por outra uma oitava para cima, virando um grito. Fazia tempo que eu não ouvia. Mas, quando ouvi, o meu corpo se lembrou. Lembrou molhado, orvalhado. O apito da locomotiva saía de dentro de mim. "Todo o cais é uma saudade de pedra", disse Álvaro de Campos. Disse eu: "Todo sino é uma saudade de bronze". E digo agora: "Toda Maria Fumaça é uma saudade de ferro e fogo".

Eu acho que deveria ser proibido gente nova andar na Maria Fumaça. É uma profanação. Acham que ela é objeto de parque de diversões, igual a outras marias-fumaças feitas por encomenda e que andam nas Disneyworlds da vida. Mas Maria Fumaça não é lugar de diversão. É lugar sagrado.

Só devia ter direito de andar nela aqueles que têm memórias dos mundos que apareciam quando seu apito se ouvia. Até o Villa-Lobos, que eu respeito tanto, não entendeu. Fez uma música sobre o trem e deu a ela o nome de "O Trenzinho do Caipira". Do caipira? E eu, que não sou caipira? O trenzinho não era do caipira, era de todo mundo, nas Minas Gerais. Em Minas, o trem de ferro é uma entidade metafísica, ser saído de outro mundo e que agora está retornando para lá. Daí o seu apito agoniado!

Acho que devia ser assim: a pessoa chegava, dizendo que queria andar de trem. Aí a locomotiva apitava seu apito de vapor, cobre e dor. Aqueles cujos olhos ficassem molhados de lágrimas, esses poderiam entrar. Os outros ganhariam uma viagem gratuita para Orlando...


(Rubem Alves, educador e escritor, é apaixonado pelo trem; recebeu o título de Ferroviarista Emérito, concedido pelo MPF - Movimento de Preservação Ferroviária. Esta crônica é divulgada com sua autorização pessoal).