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Prosas&Versos / Textos&Trilhos

Maria Fumaça

Rubem Alves - "Cenas da Vida"

Pensei nessas coisas andando numa Maria Fumaça - nome lindo. Primeiro por ser Maria. Certamente quem a batizou deveria ser casado com uma mulher que tinha fogo nas entranhas. Segundo, por ser fumaça... Maria Fumaça é uma Mulher Poeta.

Maria Fumaça é uma máquina que serve para não funcionar. Não pode competir com carro. "Maria Fumaça já não canta mais para moças, flores, casas e quintais".

Já não canta mais: olhando a Maria Fumaça abandonada nalgum galpão, à espera do desmonte e do ferro-velho, ele se lembrava de quando ela cantava e todo mundo - como n'A Banda - aparecia prá ver ela passar. E quando ela passava era tudo alegria. O Milton poetou olhando para o espaço vazio, onde a Maria Fumaça erá só o buraco da ausência chamado saudade.

Mas a minha Maria Fumaça era presença.

Foi numa viagem de Tiradentes para São João Del Rei. Cantava. Ai, que coisa mais triste! Nada mais pungente. É um lamento rouco que começa grave e vez por outra uma oitava para cima, virando um grito. Fazia tempo que eu não ouvia. Mas, quando ouvi, o meu corpo se lembrou. Lembrou molhado, orvalhado. O apito da locomotiva saía de dentro de mim. "Todo o cais é uma saudade de pedra", disse Álvaro de Campos. Disse eu: "Todo sino é uma saudade de bronze". E digo agora: "Toda Maria Fumaça é uma saudade de ferro e fogo".

Maria Fumaça 1 / 2 - Volta
© Movimento de Preservação Ferroviária